retrato de Alma

Alguns prêmios que guardo no coração:

prêmios do portfólio de Alma

Oi, você.

Estou aqui para te ajudar a contar histórias.
Mas antes, deixa eu contar a minha (se não estiver com pressa). 

Nasci quando o mundo era outro. Jornais de papel, internet discada e nada de GPT. Tive que exercitar a imaginação.

Comecei a trabalhar quando a internet estava chegando. Aos 15 anos, escrevia código HTML e criava sites: a profissão do futuro, não era? No ensino médio, escolhi publicidade em vez de jornalismo. Achava que, como jornalista, passaria fome; na publicidade, talvez encontrasse as ferramentas e o dinheiro para mudar o mundo. Bastava o cliente aprovar.

Passei por grandes agências digitais da era dos banners e hotsites, como AgênciaClick e Euro RSCG 4D. Depois, acompanhei a passagem do analógico para o digital na McCann-Erickson e na Young & Rubicam, criando campanhas que uniam os dois mundos.

Em algum momento, percebi que não seria uma grande diretora de arte nem uma motion designer brilhante. Resolvi apostar na redação e levar para a publicidade tudo o que vinha descobrindo no cinema e no teatro. Acabou sendo minha arma secreta. Passei a contar histórias em tudo o que criava, de uma série animada para a LG a um filme de terror B para a Goodyear.

Aos 27 anos, saí das agências e fundei a La Casa de la Madre, minha produtora. Tornamo-nos referência porque não nos limitávamos a produzir filmes: também criávamos as ideias. Alguns trabalhos ganharam o mundo. Leão de Ouro em Cannes, Grand Prix no El Ojo e no Clio, destaque na TIME. Parecia missão cumprida. 
Mas eu ainda não me sentia realizada. Não queria fazer só vídeos. Decidi seguir outro caminho.

Nos anos seguintes, trabalhei por conta própria. Sem equipe, sem assistentes e sem grandes orçamentos.
E aprendi muito.
Publiquei um livro.
Adaptei o livro para o teatro.
Cocriei uma exposição imersiva em um museu dedicado ao futuro. 
Criei marcas, filmes, campanhas e empresas do meu quarto. Tá bom, às vezes eu saía.
Troquei São Paulo por uma casa no meio da mata.
Nem toda mudança foi profissional. Também fiz minha transição de gênero.
Imaginei um conceito chamado Medicina da Imaginação. 
Juntei o nome do meu estúdio ao meu próprio nome. Nasceu ALMA. Basta olhar com atenção para o meu trabalho para entender por quê. 

Estou aqui para contar histórias que importam.
Para quem precisa ser visto.
Para quem precisa se lembrar.
Para quem ainda está aqui.
Vamos contar uma história juntos?

Entre em contato:
hello@alma.al
WhatsApp: +55 11 96998-8002

Quer saber mais sobre mim?
Leia abaixo minha entrevista para a Creativepool.

Publicado originalmente no Editorial da Creativepool

Poucas pessoas fizeram da reinvenção uma prática tão constante quanto Alma. Cineasta, diretora de criação e narradora de histórias, ela passou pela programação, pela publicidade, pelo teatro e pelo cinema. Começou aos 15 anos, criando sites quando a internet ainda engatinhava. Depois vieram campanhas internacionais e filmes capazes de emocionar. Em cada mudança de rumo, manteve o mesmo compromisso: contar a verdade. Seu trabalho encontra poesia sem perder a precisão e leva sensibilidade a cada imagem, frase e história.

Hoje, Alma trabalha de um estúdio cercado pela Mata Atlântica e colabora com marcas e organizações de várias partes do mundo. Defende uma criação profundamente humana. A tecnologia pode acelerar a produção, mas não substitui o cuidado, a curiosidade e a coragem de fugir das fórmulas, enfrentar assuntos difíceis e criar com empatia. Nesta conversa, ela fala sobre seu processo, suas inspirações e a busca por sentido num mercado que, muitas vezes, esquece as pessoas.


Como você começou a trabalhar na área?

Entrei numa agência aos 15 anos. A internet ainda estava começando, e os sites eram a grande vitrine digital das marcas. Bati à porta e consegui um estágio como programadora. Pouco depois, virei web designer. Aos 18, fui selecionada para estagiar na AgênciaClick, uma das maiores e mais premiadas agências digitais do mundo naquela época. Foi quando o jogo começou de verdade.

Onde você vive hoje e como trabalha?

Moro no litoral, a duas horas de São Paulo, numa casa cercada pela Mata Atlântica. É daqui que conduzo meu estúdio e colaboro com marcas, agências e organizações. Conforme o projeto, monto uma equipe sob medida ou entro diretamente como profissional independente. Assim, consigo me adaptar tanto a grandes produções quanto a trabalhos mais íntimos, sem abrir mão da qualidade nem da visão criativa.

Que experiências pessoais marcaram sua carreira?

Nas férias da infância, eu ouvia as histórias da minha avó enquanto ela cozinhava e cuidava da casa. Cresci num mundo analógico: lia gibis e revistas, brincava ao ar livre e inventava histórias com uma câmera VHS ou gravando meus próprios “podcasts” em fita cassete. Tive muita liberdade para criar. Isso influencia meu trabalho até hoje.

Também visitei os bastidores de uma emissora de TV e fiquei fascinada por tudo: a produção dos programas e a reação do público. Comecei a me perguntar não apenas como se conta uma história, mas o que faz as pessoas se reconhecerem nela. Mais tarde, estudei sociologia, antropologia, psicologia e teoria da comunicação na universidade. Essas disciplinas aprofundaram meu olhar.

Quando uni cinema, teatro e entretenimento à publicidade, as peças se encaixaram. Naquela época, jornais, revistas e comerciais de 30 segundos ainda dominavam a propaganda. Com uma bagagem tão variada, comecei a criar narrativas multimídia para marcas. Essa mistura de experiências pessoais, estudos e trabalho continua presente em tudo o que faço, seja um formato de entretenimento, um projeto de branded content ou um documentário.

Se não trabalhasse nessa área, o que faria?

Eu queria ser cientista, mas a matemática me assustou. Sempre fui muito de humanas. Talvez minha história tivesse sido diferente se alguém tivesse me dito que nem toda carreira científica gira em torno dos números.

Por um tempo, pensei em estudar jornalismo para “mudar o mundo”. Hoje coloco a expressão entre aspas; naquela época, acreditava nela de verdade. No meu primeiro emprego, conheci duas jornalistas desiludidas com a profissão e acabei escolhendo publicidade. Mais tarde, no teatro, tive certeza de que largaria tudo para ser atriz.

Tenho TDAH e me interesso de verdade por assuntos que parecem não ter nenhuma relação entre si. Se não precisasse trabalhar para pagar as contas, provavelmente teria seguido várias carreiras. A vida é curta demais para não experimentar.


Como funciona seu processo criativo? O que há de particular nele?

Estudei o método de Stanislavski nas aulas de teatro, e isso mudou minha vida. A ideia é construir personagens de dentro para fora. Em vez de imitá-los, você se aproxima de suas emoções, lembranças e motivações até que pareçam reais.

Levei esse método para as histórias e campanhas que passei a criar. Em vez de pensar no público como um “alvo” sem rosto ou reduzir pessoas a perfis de marketing, procuro sentimentos universais e encontro uma linguagem que faça sentido para quem quero alcançar. Antes de começar, mergulho no universo que vou retratar: escuto, observo, absorvo referências. Depois, crio para mim uma ou mais personagens que posso habitar. É dessa imersão que vem a verdade do trabalho.


Como você definiria seu estilo?

Poético, mas direto. Emocional sem melodrama. Íntimo. Fujo dos clichês e gosto de imagens e palavras que deixem espaço para o silêncio. Às vezes, ele diz mais do que qualquer slogan. Tento seguir um conselho que Robert McKee escreveu para mim na contracapa de Story: contar a verdade. Mesmo numa ficção ou numa campanha de fraldas, é isso que procuro fazer.

Quem inspira você? Tem referências no mercado?

Inspiro-me em pessoas que colocaram a própria vida a serviço do planeta. Sebastião Salgado fotografou a humanidade como poucos e, quando perdeu a esperança nela, ajudou a reflorestar uma área no Brasil. Douglas e Kristine Tompkins fundaram marcas como Esprit e The North Face e usaram a fortuna que construíram para comprar, recuperar e doar vastas áreas da Patagônia destinadas a parques nacionais. Greta Thunberg teve a coragem de enfrentar o poder estabelecido com uma força de comunicação rara. Na nossa área, Alex Bogusky deixou a agência que ajudou a tornar influente, criou a COMMON, uma comunidade voltada a iniciativas de impacto, e passou a investir em negócios com propósito. Todos eles questionaram as regras e encontraram maneiras de usar as engrenagens de um sistema doente para cuidar do planeta.

Que conselho daria a quem está começando na área criativa?

Cuide da sua curiosidade. Tente se encantar com algo novo todos os dias, mesmo nos dias difíceis. Não acredite que você se resume à personagem que criou para sobreviver. Você é muito mais. Aprenda as regras do jogo, mas não tente caber num molde. O mercado vai pedir que você repita o que já deu certo. Resista. Mostre o que só você pode criar, mesmo que pareça estranho ou cause desconforto.

E para quem quer conquistar mais clientes?

Não colecione clientes como troféus. Construa parcerias. Procure pessoas que compartilhem seus valores e faça com que elas conheçam seu trabalho. É aí que as coisas mais interessantes acontecem.

Você se lembra de alguma experiência que mudou sua maneira de criar?
Os maiores saltos criativos da minha vida aconteceram quando precisei me reinventar: depois de uma demissão, de ficar sem dinheiro, do fim de um relacionamento. Também quando deixei uma identidade para experimentar outra. Saí da programação para tentar a direção de arte; troquei uma grande agência por uma pequena agência de bairro, onde recomecei como redatora; e deixei uma das maiores agências do Brasil para abrir uma produtora sem nunca ter produzido um filme.

Mais tarde, desfiz uma sociedade na minha produtora, saí de São Paulo e comprei uma casa na mata. Dois meses depois, veio a pandemia. Também me abri sobre ser uma pessoa de gênero fluido, sabendo que o mundo não ficaria mais gentil por isso. Em cada uma dessas viradas, confiei em mim sem saber o que aconteceria depois. Reinventar-me me tornou mais criativa, mais preparada, mais sensível e, sobretudo, uma pessoa melhor.

De que ferramentas você não abre mão?

Papel e caneta. Uma playlist de músicas que me inspiram. Google Docs, Adobe Premiere, Photoshop e meus plugins secretos. Mais recentemente, entraram no meu processo ferramentas de IA como ChatGPT, Tldv, Midjourney, Kling e Visual Electric. A lista continua crescendo.

O que ajuda você a se manter inspirada?

Moro na mata, perto do mar. Toda manhã, a natureza me lembra que nenhum briefing criativo tem tantas texturas, sons e padrões quanto ela.

De qual trabalho você mais se orgulha?

Quase sempre me orgulho mais do projeto em que estou trabalhando agora, porque é nele que ponho o coração. Mas há trabalhos pelos quais tenho um carinho especial. Um deles é meu livro A Janela de Isabela, sobre uma criança com câncer terminal que usa a imaginação para lidar com a dor. Ele passou a ser usado como material de apoio em cuidados paliativos de oncologia pediátrica no Brasil e deu origem a uma ideia maior que ainda quero realizar: a Medicina da Imaginação.

Na publicidade, tenho muito orgulho de Meeting Murilo. O filme acompanha uma gestante cega que “conhece” o filho antes do nascimento por meio de uma ultrassonografia impressa em 3D. Circulou pelo mundo, ganhou prêmios e continua emocionando pessoas. Dez anos depois do lançamento, vi até a ideia ser plagiada numa série da Netflix.

Também me orgulho do curta Reencontro, sobre um avô que volta a se aproximar do neto já adulto. Era branded content, mas chegou aos festivais de cinema. E ainda me fez reencontrar uma amiga de infância: ela me ligou depois de assistir ao filme e descobrir que eu tinha escrito a história.

Há ainda Os Últimos Guardiões, documentário que produzi executivamente pelo selo que criei. Ele mostra como o desmatamento da Amazônia e a destruição da árvore mais sagrada para o povo Huni Kuin afetam sua espiritualidade e a vida de quem protege a floresta.

Que tendências você enxerga para o futuro da criatividade?

Como em tantos outros mercados, produtividade e lucro devem continuar ditando as decisões. A IA, portanto, não vai necessariamente melhorar o que produzimos. Pode significar mais pressa, cortes nas equipes e trabalhos cada vez mais parecidos. Ao mesmo tempo, pessoas com poucos recursos poderão realizar, sozinhas, obras que antes pareciam impossíveis. Isso pode abrir espaço para talentos que ainda não tiveram a chance de mostrar o que sabem fazer.

Passado o entusiasmo inicial com a IA, acredito que o público vai se cansar de tanta artificialidade. A arte feita por pessoas pode ganhar novo fôlego, com mais valor para o processo criativo, e não só para o resultado. Talvez isso aconteça fora da indústria, no campo da arte. Afinal, arte nasce de um universo interior humano. As máquinas podem imitar o resultado, mas não a experiência humana que lhe dá origem.

O que diferencia alguém realmente excepcional na criação?

A capacidade de se importar. Trabalhar com profundidade, impressionar sem perder o propósito e cuidar da história, das pessoas envolvidas e do impacto do que se cria.

Quem cria de maneira excepcional vai além da técnica e dos prêmios. Escuta, mergulha no assunto e assume a responsabilidade pelo que coloca no mundo. Muita gente trabalha para alimentar métricas ou a própria vaidade. Quem se destaca, porém, cria com verdade e empatia. Sabe que uma ideia pode influenciar a cultura, os comportamentos e até o futuro do planeta.

Talento importa, mas coragem também: para escapar das fórmulas, dizer verdades incômodas e aceitar o risco de ser mal compreendido. E é preciso ter humildade para colocar o trabalho a serviço de algo maior que o próprio ego.

Como a tecnologia mudou o trabalho criativo? E como você lida com isso?

A tecnologia tornou a criação mais acessível, mas também acelerou a superficialidade. Os algoritmos estimulam um consumo voraz e transformam a comunicação em fast-food. Nesse fluxo, histórias que exigem tempo para ser feitas e para ser compreendidas quase desaparecem do feed.

A tecnologia também mudou nossos hábitos de atenção: há menos tempo para refletir, interpretar e questionar. É mais fácil repetir; mais difícil tolerar o diferente. Precisamos lidar com essa realidade sem nos render a ela. O cérebro humano não é um simples depósito de dopamina. Há uma pessoa inteira por trás de cada tela, e ela merece ter sua inteligência e sensibilidade estimuladas, não ser tratada como cobaia treinada para consumir.

Procuro usar a tecnologia com senso crítico. Questiono as ferramentas que entram no meu processo e as uso para ampliar a imaginação, não para achatá-la. Meu desafio é preservar profundidade e sentido num sistema que premia a pressa e a repetição.

Se pudesse mudar uma coisa no mercado, o que seria?

A ganância. Muitas vezes, a criatividade é sacrificada em nome do lucro, da velocidade e da escala. O mercado se acostumou a produzir mais gastando menos, espremendo pessoas e ideias até que quase nada autêntico sobreviva. Eu trocaria essa lógica por uma cultura de cuidado com as pessoas, com as histórias e com o planeta. Sem isso, o trabalho até gera números, mas perde o sentido.

Que livros, sites ou outras referências você recomenda?

Story, de Robert McKee. A Construção da Personagem, de Konstantin Stanislavski. Melhor ainda: faça seis meses de teatro e experimente o método na prática. Recomendo também O Animal Social, de David Brooks, e meu livro A Janela de Isabela, disponível no Kindle Unlimited. Se você já assina o serviço e não gostar, pelo menos não pagou pelo livro à parte.

Uma dica que costumo dar é explorar o catálogo do streaming ou do YouTube sem seguir suas recomendações. Clique em algo que normalmente não escolheria. É um jeito de sair da bolha, conhecer outras realidades e ampliar o repertório.

Às vezes, a melhor ferramenta nem é digital. Pegue papel e caneta, coloque uma música e saia para caminhar ou pedalar. A inspiração pode aparecer quando você menos espera.


Poucas pessoas fizeram da reinvenção uma prática tão constante quanto Alma. Cineasta, diretora de criação e narradora de histórias, ela passou pela programação, pela publicidade, pelo teatro e pelo cinema. Começou aos 15 anos, criando sites quando a internet ainda engatinhava. Depois vieram campanhas internacionais e filmes capazes de emocionar. Em cada mudança de rumo, manteve o mesmo compromisso: contar a verdade. Seu trabalho encontra poesia sem perder a precisão e leva sensibilidade a cada imagem, frase e história.

Hoje, Alma trabalha de um estúdio cercado pela Mata Atlântica e colabora com marcas e organizações de várias partes do mundo. Defende uma criação profundamente humana. A tecnologia pode acelerar a produção, mas não substitui o cuidado, a curiosidade e a coragem de fugir das fórmulas, enfrentar assuntos difíceis e criar com empatia. Nesta conversa, ela fala sobre seu processo, suas inspirações e a busca por sentido num mercado que, muitas vezes, esquece as pessoas.


Como você começou a trabalhar na área?

Entrei numa agência aos 15 anos. A internet ainda estava começando, e os sites eram a grande vitrine digital das marcas. Bati à porta e consegui um estágio como programadora. Pouco depois, virei web designer. Aos 18, fui selecionada para estagiar na AgênciaClick, uma das maiores e mais premiadas agências digitais do mundo naquela época. Foi quando o jogo começou de verdade.

Onde você vive hoje e como trabalha?

Moro no litoral, a duas horas de São Paulo, numa casa cercada pela Mata Atlântica. É daqui que conduzo meu estúdio e colaboro com marcas, agências e organizações. Conforme o projeto, monto uma equipe sob medida ou entro diretamente como profissional independente. Assim, consigo me adaptar tanto a grandes produções quanto a trabalhos mais íntimos, sem abrir mão da qualidade nem da visão criativa.

Que experiências pessoais marcaram sua carreira?

Nas férias da infância, eu ouvia as histórias da minha avó enquanto ela cozinhava e cuidava da casa. Cresci num mundo analógico: lia gibis e revistas, brincava ao ar livre e inventava histórias com uma câmera VHS ou gravando meus próprios “podcasts” em fita cassete. Tive muita liberdade para criar. Isso influencia meu trabalho até hoje.

Também visitei os bastidores de uma emissora de TV e fiquei fascinada por tudo: a produção dos programas e a reação do público. Comecei a me perguntar não apenas como se conta uma história, mas o que faz as pessoas se reconhecerem nela. Mais tarde, estudei sociologia, antropologia, psicologia e teoria da comunicação na universidade. Essas disciplinas aprofundaram meu olhar.

Quando uni cinema, teatro e entretenimento à publicidade, as peças se encaixaram. Naquela época, jornais, revistas e comerciais de 30 segundos ainda dominavam a propaganda. Com uma bagagem tão variada, comecei a criar narrativas multimídia para marcas. Essa mistura de experiências pessoais, estudos e trabalho continua presente em tudo o que faço, seja um formato de entretenimento, um projeto de branded content ou um documentário.

Se não trabalhasse nessa área, o que faria?

Eu queria ser cientista, mas a matemática me assustou. Sempre fui muito de humanas. Talvez minha história tivesse sido diferente se alguém tivesse me dito que nem toda carreira científica gira em torno dos números.

Por um tempo, pensei em estudar jornalismo para “mudar o mundo”. Hoje coloco a expressão entre aspas; naquela época, acreditava nela de verdade. No meu primeiro emprego, conheci duas jornalistas desiludidas com a profissão e acabei escolhendo publicidade. Mais tarde, no teatro, tive certeza de que largaria tudo para ser atriz.

Tenho TDAH e me interesso de verdade por assuntos que parecem não ter nenhuma relação entre si. Se não precisasse trabalhar para pagar as contas, provavelmente teria seguido várias carreiras. A vida é curta demais para não experimentar.


Como funciona seu processo criativo? O que há de particular nele?

Estudei o método de Stanislavski nas aulas de teatro, e isso mudou minha vida. A ideia é construir personagens de dentro para fora. Em vez de imitá-los, você se aproxima de suas emoções, lembranças e motivações até que pareçam reais.

Levei esse método para as histórias e campanhas que passei a criar. Em vez de pensar no público como um “alvo” sem rosto ou reduzir pessoas a perfis de marketing, procuro sentimentos universais e encontro uma linguagem que faça sentido para quem quero alcançar. Antes de começar, mergulho no universo que vou retratar: escuto, observo, absorvo referências. Depois, crio para mim uma ou mais personagens que posso habitar. É dessa imersão que vem a verdade do trabalho.


Como você definiria seu estilo?

Poético, mas direto. Emocional sem melodrama. Íntimo. Fujo dos clichês e gosto de imagens e palavras que deixem espaço para o silêncio. Às vezes, ele diz mais do que qualquer slogan. Tento seguir um conselho que Robert McKee escreveu para mim na contracapa de Story: contar a verdade. Mesmo numa ficção ou numa campanha de fraldas, é isso que procuro fazer.

Quem inspira você? Tem referências no mercado?

Inspiro-me em pessoas que colocaram a própria vida a serviço do planeta. Sebastião Salgado fotografou a humanidade como poucos e, quando perdeu a esperança nela, ajudou a reflorestar uma área no Brasil. Douglas e Kristine Tompkins fundaram marcas como Esprit e The North Face e usaram a fortuna que construíram para comprar, recuperar e doar vastas áreas da Patagônia destinadas a parques nacionais. Greta Thunberg teve a coragem de enfrentar o poder estabelecido com uma força de comunicação rara. Na nossa área, Alex Bogusky deixou a agência que ajudou a tornar influente, criou a COMMON, uma comunidade voltada a iniciativas de impacto, e passou a investir em negócios com propósito. Todos eles questionaram as regras e encontraram maneiras de usar as engrenagens de um sistema doente para cuidar do planeta.

Que conselho daria a quem está começando na área criativa?

Cuide da sua curiosidade. Tente se encantar com algo novo todos os dias, mesmo nos dias difíceis. Não acredite que você se resume à personagem que criou para sobreviver. Você é muito mais. Aprenda as regras do jogo, mas não tente caber num molde. O mercado vai pedir que você repita o que já deu certo. Resista. Mostre o que só você pode criar, mesmo que pareça estranho ou cause desconforto.

E para quem quer conquistar mais clientes?

Não colecione clientes como troféus. Construa parcerias. Procure pessoas que compartilhem seus valores e faça com que elas conheçam seu trabalho. É aí que as coisas mais interessantes acontecem.

Você se lembra de alguma experiência que mudou sua maneira de criar?
Os maiores saltos criativos da minha vida aconteceram quando precisei me reinventar: depois de uma demissão, de ficar sem dinheiro, do fim de um relacionamento. Também quando deixei uma identidade para experimentar outra. Saí da programação para tentar a direção de arte; troquei uma grande agência por uma pequena agência de bairro, onde recomecei como redatora; e deixei uma das maiores agências do Brasil para abrir uma produtora sem nunca ter produzido um filme.

Mais tarde, desfiz uma sociedade na minha produtora, saí de São Paulo e comprei uma casa na mata. Dois meses depois, veio a pandemia. Também me abri sobre ser uma pessoa de gênero fluido, sabendo que o mundo não ficaria mais gentil por isso. Em cada uma dessas viradas, confiei em mim sem saber o que aconteceria depois. Reinventar-me me tornou mais criativa, mais preparada, mais sensível e, sobretudo, uma pessoa melhor.

De que ferramentas você não abre mão?

Papel e caneta. Uma playlist de músicas que me inspiram. Google Docs, Adobe Premiere, Photoshop e meus plugins secretos. Mais recentemente, entraram no meu processo ferramentas de IA como ChatGPT, Tldv, Midjourney, Kling e Visual Electric. A lista continua crescendo.

O que ajuda você a se manter inspirada?

Moro na mata, perto do mar. Toda manhã, a natureza me lembra que nenhum briefing criativo tem tantas texturas, sons e padrões quanto ela.

De qual trabalho você mais se orgulha?

Quase sempre me orgulho mais do projeto em que estou trabalhando agora, porque é nele que ponho o coração. Mas há trabalhos pelos quais tenho um carinho especial. Um deles é meu livro A Janela de Isabela, sobre uma criança com câncer terminal que usa a imaginação para lidar com a dor. Ele passou a ser usado como material de apoio em cuidados paliativos de oncologia pediátrica no Brasil e deu origem a uma ideia maior que ainda quero realizar: a Medicina da Imaginação.

Na publicidade, tenho muito orgulho de Meeting Murilo. O filme acompanha uma gestante cega que “conhece” o filho antes do nascimento por meio de uma ultrassonografia impressa em 3D. Circulou pelo mundo, ganhou prêmios e continua emocionando pessoas. Dez anos depois do lançamento, vi até a ideia ser plagiada numa série da Netflix.

Também me orgulho do curta Reencontro, sobre um avô que volta a se aproximar do neto já adulto. Era branded content, mas chegou aos festivais de cinema. E ainda me fez reencontrar uma amiga de infância: ela me ligou depois de assistir ao filme e descobrir que eu tinha escrito a história.

Há ainda Os Últimos Guardiões, documentário que produzi executivamente pelo selo que criei. Ele mostra como o desmatamento da Amazônia e a destruição da árvore mais sagrada para o povo Huni Kuin afetam sua espiritualidade e a vida de quem protege a floresta.

Que tendências você enxerga para o futuro da criatividade?

Como em tantos outros mercados, produtividade e lucro devem continuar ditando as decisões. A IA, portanto, não vai necessariamente melhorar o que produzimos. Pode significar mais pressa, cortes nas equipes e trabalhos cada vez mais parecidos. Ao mesmo tempo, pessoas com poucos recursos poderão realizar, sozinhas, obras que antes pareciam impossíveis. Isso pode abrir espaço para talentos que ainda não tiveram a chance de mostrar o que sabem fazer.

Passado o entusiasmo inicial com a IA, acredito que o público vai se cansar de tanta artificialidade. A arte feita por pessoas pode ganhar novo fôlego, com mais valor para o processo criativo, e não só para o resultado. Talvez isso aconteça fora da indústria, no campo da arte. Afinal, arte nasce de um universo interior humano. As máquinas podem imitar o resultado, mas não a experiência humana que lhe dá origem.

O que diferencia alguém realmente excepcional na criação?

A capacidade de se importar. Trabalhar com profundidade, impressionar sem perder o propósito e cuidar da história, das pessoas envolvidas e do impacto do que se cria.

Quem cria de maneira excepcional vai além da técnica e dos prêmios. Escuta, mergulha no assunto e assume a responsabilidade pelo que coloca no mundo. Muita gente trabalha para alimentar métricas ou a própria vaidade. Quem se destaca, porém, cria com verdade e empatia. Sabe que uma ideia pode influenciar a cultura, os comportamentos e até o futuro do planeta.

Talento importa, mas coragem também: para escapar das fórmulas, dizer verdades incômodas e aceitar o risco de ser mal compreendido. E é preciso ter humildade para colocar o trabalho a serviço de algo maior que o próprio ego.

Como a tecnologia mudou o trabalho criativo? E como você lida com isso?

A tecnologia tornou a criação mais acessível, mas também acelerou a superficialidade. Os algoritmos estimulam um consumo voraz e transformam a comunicação em fast-food. Nesse fluxo, histórias que exigem tempo para ser feitas e para ser compreendidas quase desaparecem do feed.

A tecnologia também mudou nossos hábitos de atenção: há menos tempo para refletir, interpretar e questionar. É mais fácil repetir; mais difícil tolerar o diferente. Precisamos lidar com essa realidade sem nos render a ela. O cérebro humano não é um simples depósito de dopamina. Há uma pessoa inteira por trás de cada tela, e ela merece ter sua inteligência e sensibilidade estimuladas, não ser tratada como cobaia treinada para consumir.

Procuro usar a tecnologia com senso crítico. Questiono as ferramentas que entram no meu processo e as uso para ampliar a imaginação, não para achatá-la. Meu desafio é preservar profundidade e sentido num sistema que premia a pressa e a repetição.

Se pudesse mudar uma coisa no mercado, o que seria?

A ganância. Muitas vezes, a criatividade é sacrificada em nome do lucro, da velocidade e da escala. O mercado se acostumou a produzir mais gastando menos, espremendo pessoas e ideias até que quase nada autêntico sobreviva. Eu trocaria essa lógica por uma cultura de cuidado com as pessoas, com as histórias e com o planeta. Sem isso, o trabalho até gera números, mas perde o sentido.

Que livros, sites ou outras referências você recomenda?

Story, de Robert McKee. A Construção da Personagem, de Konstantin Stanislavski. Melhor ainda: faça seis meses de teatro e experimente o método na prática. Recomendo também O Animal Social, de David Brooks, e meu livro A Janela de Isabela, disponível no Kindle Unlimited. Se você já assina o serviço e não gostar, pelo menos não pagou pelo livro à parte.

Uma dica que costumo dar é explorar o catálogo do streaming ou do YouTube sem seguir suas recomendações. Clique em algo que normalmente não escolheria. É um jeito de sair da bolha, conhecer outras realidades e ampliar o repertório.

Às vezes, a melhor ferramenta nem é digital. Pegue papel e caneta, coloque uma música e saia para caminhar ou pedalar. A inspiração pode aparecer quando você menos espera.


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